Hospitalidade (abrir espaço sem controlar o outro)
A hospitalidade não é acolhimento passivo, mas a criação consciente de condições para a presença, a diferença e o dissenso.
A hospitalidade é frequentemente entendida como um gesto de receção ou abertura cordial. No entanto, no campo cultural e institucional, a hospitalidade implica algo mais exigente: criar espaço para o outro sem o reduzir, antecipar ou enquadrar em excesso. Não se trata apenas de acolher, mas de aceitar a transformação que a presença do outro provoca.
Na história da Spark Foundation, a hospitalidade assumiu, desde cedo, uma dimensão concreta e material. Nos primeiros anos, traduziu-se na preparação cuidada de espaços de acolhimento temporário, na organização das condições de entrada e saída dos beneficiários e na atenção à privacidade, à segurança e ao conforto. Essa experiência inicial revelou que acolher implica planeamento, responsabilidade e respeito pelos limites do outro.
Essa aprendizagem permite hoje pensar a hospitalidade para além do gesto material. No campo cultural, a hospitalidade coloca questões centrais sobre poder, mediação e participação: quem define as regras de entrada, os tempos e os formatos? Como criar espaços institucionais que não neutralizem a diferença nem transformem o acolhimento num mecanismo de controlo?
Para a Spark Foundation, a hospitalidade é um princípio operativo. Manifesta-se na forma como os projetos são concebidos como espaços de encontro, e não como dispositivos fechados; na atenção às condições simbólicas e materiais que permitem a presença; e na aceitação do dissenso como parte legítima do processo cultural.
Depois da atenção e do cuidado, a hospitalidade surge como passo seguinte. Abrir espaço não basta; é preciso sustentar esse espaço com responsabilidade, aceitando que a relação com o outro implica sempre risco, negociação e aprendizagem mútua.
Outros artigos sobre o tema:
O trabalho invisível antes da hospitalidade (2020)
A proximidade possível em tempo de isolamento (2020)