Cuidar (entre a emergência e a curadoria)
Dois meses depois da tempestade, ainda há telhados por reparar, sedes de associações fechadas (e temos visto tantos em Ferreira do Zêzere!), casas que não voltaram a ser habitáveis. E há, ao mesmo tempo, uma espécie de urgência em retomar, em voltar a programar, em abrir portas, em deixar continuar a acontecer a vida.
É um tempo estranho, este. Entre o que ainda não está resolvido e o que precisa de continuar. Cuidar, não é uma abstração, é concreto, imediato e dá trabalho: limpar, reconstruir, garantir condições mínimas. Mas Cuidar é também uma outra coisa, que nestes tempos parece desajustada, porque é menos visível e mais lenta.
Talvez por isso nos faça sentido aproximar esta ideia de cuidado da forma como se trabalha em arte contemporânea. Se aceitarmos que muitas práticas artísticas hoje não se fixam num objeto, mas em relações, então a programação ou curadoria não são apenas atos de escolher e apresentar. Mas atos de criação de condições, de sustentação de processos, e de acompanhamento. Cuidar das condições de trabalho dos artistas, dos tempos que os processos exigem, das mediações que tornam possível a participação. Cuidar das fragilidades próprias de práticas que nem sempre são estáveis, repetíveis ou previsíveis.
Há, neste sentido, uma proximidade inesperada entre conservar e cuidar. Não no sentido de fixar ou estabilizar, mas de acompanhar no tempo, aceitar transformações, documentar, reativar (e por vezes deixar desaparecer).
O que liga uma resposta a uma tempestade e a prática curatorial não é evidente. Mas, para nós, está precisamente na forma como se decide estar presente, como se sabe responder ao contexto, como se consegue sustentar e manter relações. Nem sempre é visível, mas, no fundo, é o que permite continuar.